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22 de fevereiro de 2008

A saga das fabricantes japonesas de eletroeletrônicos no Brasil

Enquanto as famílias de imigrantes japoneses comemoram o êxito da empreitada cem anos depois dos primeiros que por aqui aportaram, os fabricantes de eletroeletrônicos da terra do sol nascente reservam cada vez mais espaço para o Brasil, um mercado ainda em descobrimento para muitos. Eles chegaram por aqui depois dos primeiros imigrantes, a partir da década de 1960, mas, ainda hoje, seus objetivos e a visão de mercado se parecem com aqueles dos primeiros aventureiros: se estabelecer num País repleto de oportunidades.

A JVC, do grupo Matsushita Electric Industrial , por exemplo, entrou no Brasil em 1996 por meio de uma parceria com a Gradiente, que duraria até 1999. Apesar da mentalidade cosmopolita da empresa - a maior parte da receita vem das subsidiárias internacionais -, o Brasil ainda é um País considerado intrigante pelos japoneses da JVC.

"Mesmo em um mundo globalizado, o Brasil ainda é muito distante do Japão. As informações são poucas e a cultura é muito diferente", explicou Osvaldo Okamura, presidente da JVC do Brasil. A empresa teve um início frustrante no País. Em 1996, na ocasião da parceria com a Gradiente, passou a produzir no Brasil televisores, videocassetes, aparelhos de áudio, entre outros produtos. Com a desvalorização do real no final de 1998, o kit de componentes importados utilizado pela fabricante triplicou de preço.

"Eles acharam que era o fim do mundo", contou Okamura. "Optamos por enxugar a linha e focar no que éramos melhor", disse. No ano seguinte, a JVC transferiu sua produção para a fábrica da Panasonic, que também pertence ao grupo Matsushita, e reduziu sua atuação no mercado de filmadoras e de som automotivo.

Mas o Brasil ainda reservou surpresas para os japoneses. No início da década de 2000, fabricantes coreanas como a Samsung e a LG Eletronics forçaram uma guerra de preços no mercado brasileiro que a JVC não conseguiu acompanhar. Em 2006, a empresa registrou um frustrante resultado. "2007 foi o ano da recuperação", disse Okamura, após uma readequação dos preços. A empresa deve fechar o ano fiscal, que termina em março próximo, com crescimento de 20%, o que deve representar um faturamento de cerca de R$ 66 milhões. Para 2008, a JVC centrará todas as suas forças no mercado de som automotivo. Segundo Okamura, novos produtos serão lançados e a companhia espera crescer até 12% este ano.

Quem também ajustou seu processo produtivo ao mercado brasileiro no ano passado foi a Sony, que iniciou a produção de notebooks no País em 2007. Mas não poderia ser diferente. As vendas de notebooks no Brasil cresceram 183% no ano passado. Esse desempenho chamou a atenção e atraiu empresas interessadas do mundo todo. Conforme dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), foram vendidos cerca de 1,9 milhão de notebooks. "Ao longo de 2007 ampliamos a linha de produção de televisores, câmeras digitais e trouxemos a linha de notebooks", explicou Marcus Trugilho, gerente de comunicação da Sony. Baseado nesse tripé de produtos, a Sony fechará o ano fiscal, em março, com aumento de 45% nas vendas no Brasil.

O País é o segundo principal mercado para a multinacional na América Latina, atrás do México. Segundo Trugilho, o que vem chamando a atenção da empresa é o desempenho das vendas nos estados do Centro-Oeste e no interior de São Paulo. "Sentimos um aumento das vendas muito forte na região central do País. Existem muitos fazendeiros, produtores de soja e de cana", explicou o executivo.

De acordo com o consultor Alberto Ferrentino, sócio da Gouvea de Souza Consultoria, o momento da indústria de eletroeletrônicos no Brasil é histórico. "O mercado de eletroeletrônicos brasileiro está muito próspero. Nos últimos dois anos foi a categoria que mais cresceu. Fechou 2007 com alta de 15,9%", afirmou Ferrentino.

Conforme o consultor, as vendas dos produtos de informática, que atraíram a Sony, são resultados de três fatores: apreciação cambial, incentivos fiscais e a entrada do grande varejo no mercado, o que abriu a possibilidade para os consumidores da classe C. "E quando se leva à classe C algum tipo de produto sempre há uma explosão de consumo."

Parcerias frustradas

As parcerias que não deram certo no Brasil não ficam restritas à JVC com a Gradiente. A japonesa Sharp Corp., por exemplo, em 1972 associou-se à Machline para fabricar eletroeletrônico no Brasil e vendeu seus produtos no País durante muito tempo. No início da década de 1990, a empresa chegou a alcançar a liderança no mercado de televisores e faturava cerca de US$ 1 bilhão. Contudo, a abertura comercial do início da década de 1990 e mais tarde a desvalorização do real levaram a companhia a uma crise, que culminou com falência, decretada em 2002.

Outra parceria que não deu certo foi entre a Mitsubishi e a Evadin. Importadora de eletroeletrônicos da Mitsubishi durante a década de 1960, a Evadin assinou em 1978 um contrato com a empresa japonesa que lhe permitiu fabricar no Brasil, com exclusividade, os seus televisores e aparelhos de vídeo. Enquanto a Mitsubishi oferecia assistência técnica e transferência de tecnologia, a Evadin produzia e utilizava a marca da japonesa. A Mitsubishi anunciou a intenção de romper as relações comerciais com a brasileira em dezembro de 1997. A Evadin acusou na Justiça a Mitsubishi de prejudicar seus negócios. A disputa, iniciada em 1999, aconteceu no Brasil e no Japão e a Evadin perdeu.

Dificuldades

Apesar do bom momento do mercado doméstico, as diferenças entre os mercados japonês e brasileiro ainda geram dificuldades para os fabricantes. "O tipo de competição no Brasil é diferente. Aqui nós ainda temos uma disputa mais regional. No Japão é uma coisa mais pasteurizada, entre grandes varejistas", explicou Okamura, da JVC.

Segundo o executivo, a disposição dos produtos nas lojas também difere bastante da encontrada por aqui. "No Brasil a preferência é por peças de comunicação mais simples, mais limpas. No Japão os pontos-de-venda têm uma quantidade maior de informações", concordou Trugilho.

Além disso, o executivo da Sony afirmou que o entendimento da estrutura tributária assim como as dificuldades logísticas também assustam os japoneses. "O Brasil possui uma renda per capita muito baixa em relação à Europa. Eles enxergam isso como um problema também", afirmou Okamura.

Panasonic

A Panasonic, também do grupo Matsushita, investiu R$ 25 milhões no lançamento de sua linha de produtos em 2007. Na ocasião, Masanobu Matsuda, presidente da Panasonic no Brasil, afirmou que a multinacional tem como prioridade crescer no Brasil, operação que registrou faturamento de US$ 1,2 bilhão em 2006.

As câmeras fotográficas digitais foram as vedetes do último lançamento da companhia no Brasil. Na ocasião, Ruy Pena, diretor comercial da empresa, afirmou que os televisores lideram as vendas locais, seguidos da linha de áudio e dos microondas, mas declarou que as câmeras fotográficas digitais assumiriam o segundo lugar este ano.

Fonte: Varejista

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